Ilustração de casal na janela e a mulher está grávida
Entenda como funciona o trabalho de parto

Entenda como funciona o trabalho de parto

De todas as etapas que envolvem o nascimento de uma criança, o “trabalho de parto” é aquela que mais é permeada de mitos. O conjunto de fenômenos fisiológicos que ocorre no corpo de uma mulher para a chegada de um bebê costuma ser narrado como um momento doloroso e sofrido, além da influência de relatos baseados em experiências de terceiros, que nem sempre possuem evidências científicas. Todos estes fatores podem comprometer a escolha da via de parto pela mulher, assim como o próprio trabalho dos profissionais de saúde.

            O trabalho de parto ocorre em três fases: a latente, a ativa e a de transição. Ele começa com a atividade uterina e continua com a dilatação progressiva. O objetivo é a preparação do canal de parto para passagem do feto, por isso acontecem contrações de intensidade e frequência ascendentes até a expulsão fetal. Ele é conduzido por uma equipe multiprofissional: “O ideal é que o atendimento seja combinado entre uma enfermeira obstetra e um médico obstetra. São monitoradas as contrações no períneo e as frequências cardíacas do feto, sendo avaliada por eles a dilatação cervical”, esclarece o doutor em ginecologia obstetrícia e médico da Unimed Belo Horizonte e do Hospital Sofia Feldman, Lucas Barbosa da Silva. A recomendação é avaliar as contrações do períneo e auscultar os batimentos do feto a cada 20 a 30 minutos durante a fase de dilatação e, no período expulsivo, a cada 5 a 15 minutos.

Via de parto

É durante o trabalho de parto que deve acontecer a escolha da via de parto: se ele será natural ou cesárea. “Vamos preenchendo um gráfico, o partograma, para ver como está a velocidade de dilatação e a descida do polo cefálico na pelve. Quando você tem uma desproporção entre o diâmetro da cabeça e o volume da pelve, o que só consegue ser visto quando o paciente está na fase adiantada, é que se determina a intervenção. Ou quando o bebê demonstra durante o trabalho de parto uma reserva de oxigênio comprometida”, lembra Lucas Barbosa da Silva. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), apenas uma razão válida pode determinar a intervenção no processo natural de parto. “A cesariana é uma cirurgia de resgate, de exceção”, lembra o obstetra da Unimed Belo Horizonte.

O trabalho de parto humanizado

Entre 70% a 80% dos partos, não é preciso nenhuma intervenção médico-cirúrgica. “O parto é um processo natural e fisiológico, mas nem todas as mulheres estão preparadas. Temos que buscar um equilíbrio nesse processo”, lembra Lucas Barbosa da Silva. Na busca por esse equilíbrio, entra em cena o parto humanizado. Pautado no resgate das características fisiológicas do trabalho de parto, na intervenção mínima e no uso de evidências científicas, o parto humanizado utiliza instrumentos que criam um ambiente favorável ao parto natural e diminuem as chances de intervenções médicas e farmacológicas.

            “A humanização reintroduz a família no ambiente de parto, resgata o acompanhamento do marido, respeita a privacidade e os desejos da mulher”, afirma o obstetra. Do ponto de vista arquitetônico, o parto humanizado preconiza um quarto confortável e acolhedor para a mulher durante o pré, o parto e o pós-parto. Nele, elementos como banheira de água morna e outros instrumentos, como espaço para a mulher andar e bola suíça, permitem aliviar a dor e usar a gravidade a favor do nascimento. “Você aproxima o aconchego que a mulher tem no lar, mas com toda a segurança e equipamentos de monitorização necessários”, ressalta Lucas.

            Do ponto de vista da assistência, um parto humanizado permite que a mulher tenha a criança em posições que facilitem a expulsão, como a vertical, abreviando a fase de dilatação e o período expulsivo. “Esse é um processo universal, recomendado por todas as agências internacionais. É um caminho sem volta, as maternidades, os médicos e a equipe de assistência precisam se adequar a essa mudança de paradigma”, explica o obstetra.

Benefícios de ter um parto natural

Ter um parto natural e passar pelo trabalho de parto é uma decisão muito mais importante do que se imagina. Trabalhos científicos apontam que o rompimento da bolsa amniótica e a passagem do feto pelo canal vaginal permitem que a criança se colonize com as bactérias vaginais da mãe. “Isso leva a uma colonização da orofaringe dos fetos. Essa colonização é um importante gatilho na formação do sistema imunológico do bebê. Quando você faz uma cesariana eletiva, sem a paciente ser submetida a esse processo, o bebê acaba adquirindo bactérias do ambiente hospitalar, altamente patogênicas”, diz Lucas Barbosa da Silva. A chamada epidemia de cesáreas eletivas está sendo correlacionada com o aumento do número de crianças alergênicas, incluídas no transtorno do espectro autista (TEA) e até à predisposição à obesidade. Outra vantagem do parto normal é a descida do leite mais rápida, pois ele é produzido em maior quantidade, uma vez que o bebê nasce com uma sucção mais vigorosa . O bebê que nasce de parto normal tem uma ativação do metabolismo durante o parto, menos distúrbios respiratórios, menor risco de icterícia neonatal e amadurecimento do fígado e do pulmão. “O trabalho de parto, então, é um mecanismo para fortalecer e preparar para a vida extrauterina”, define o médico.